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Marcelo Ruschel
Fotógrafo |
| “Eu só conheço metade do tênis, pois quando estou em quadra só vejo um lado” |
| São 25 anos de carreira. Para comemorar, o fotógrafo gaúcho Marcelo Ruschel montou a exposição fotográfica “Tênis-Arte”, com 25 fotos. O pré-lançamento da mostra aconteceu durante o Brasileirão de Sêniors, em julho, em Brasília. Mas a exposição será itinerante. E a primeira etapa está programada para Porto Alegre, em dezembro. A mostra também tem um foco social: os lucros da venda das fotos (*) serão doados para o Projeto WimBelemDom, idealizado pelo próprio Marcelo. Acompanhe a entrevista concedida com exclusividade ao Tênis Show deste fótografo que já clicou os principais torneios de tênis do mundo, que hoje assina as fotos da POA Press – Agência de Fotojornalismo e batalha para manter o projeto WimBelemDom em funcionamento: |
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Como foi o teu início com a fotografia?
Eu me criei na Leopoldina Juvenil, e todos os meus amigos, na minha adolescência, jogavam tênis. Eu até tentei. Fiz escolinha, mas não durou meses. Eles, porém, continuaram. Eu sempre gostei muito de fotografia, que era o hobby do meu avô, Waldemar Ruschel, que foi quem me criou, e brincando comecei a fotografar os meus amigos jogando tênis. Em 1983, em uma Copa Itaú, que teve o Neco Aerts como campeão, fotografei e, por insistência do Marques (Antônio Marques), eu acabei expondo as fotos na que é hoje a Sala Thomaz Koch. E esta exposição me rendeu um convite para trabalhar no Jornal do Tênis, que estava se iniciando, projeto do Ennio Moreira, do Otávio Piva Neto e da Whalmir Anna, como editora. Foi este o trabalho que me projetou em um cenário maior e passei a ser contratado por promotores para fotografar os torneios que vinham para o Sul. E, desde então, nunca parei de fazer tênis.
Como foi a tua formação?
Eu sempre fui autodidata. Eu adorava mexer escondido nas máquinas fotográficas do meu avô, o que ele não gostava, pois eu era muito pequeno. Adorava ver as “figurinhas” das revistas em alemão que ele assinava sobre fotografia. No Colégio Anchieta, fiz o curso profissionalizante de fotografia. Muita coisa eu até já sabia, mas sempre se recebe uma informação nova. E sempre que aparecia algum curso sobre o assunto, eu estava lá.
O teu trabalho foi marcado também por teres fotografado os bons momentos da carreira do Guga Kuerten. Como era esta relação?
Muitas pessoas até acham que eu era o fotógrafo do Guga. Mas, não. Pela experiência que eu tinha de fotografar eventos esportivos – porque depois de certo momento, eu passei a fazer também vôlei de praia, vôlei de quadra, beach soccer –, eu acabei mostrando para o Banco do Brasil, um dos principais patrocinadores do Guga, que eles teriam um ótimo retorno se tivessem um fotógrafo acompanhando o jogador. Por quê? Eu editava a melhor imagem em que aparecia a logomarca do Banco na manga do Guga para distribuir gratuitamente para os veículos de comunicação do Brasil. A imagem institucional do Banco era trabalhada desta forma, também. Depois trabalhei para outros patrocinadores, como Diadora, Olympikus.
Qual é o esporte mais difícil de fotografar?
Como qualquer coisa que se faça na vida, é preciso entender o que se vai fazer. Um dos segredos do esporte é gostar do esporte e depois buscar entendê-lo. Eu, por exemplo, adoro tênis, mas só conheço metade do tênis, pois quando estou dentro da quadra vejo apenas um lado. Eu não consigo assistir e analisar um jogo. Eu fico grudado em um tenista. Na época do Guga, por exemplo, eu ficava 99% atento ao Guga e registrava o adversário. Fica difícil entender o jogo. É preciso entender o esporte para se posicionar certo, com o equipamento certo, a luz certa e antecipar o que pode acontecer.
O tênis é um esporte que exige concentração, e os jogadores são mais contidos. Existem os preferidos para serem fotografados? O Thomaz Bellucci, por exemplo, é bastante expressivo.
Ele é bem expressivo. O Meligeni, por exemplo, era muito bom de fotografar, também porque fazia uma integração com o público, com brincadeiras, o que acabava rendendo boas fotos.
As 50 fotos que fazem parte da coleção que comemora os teus 25 anos, das quais 25 estão na exposição, são fotos artísticas. Qual o teu objetivo quando entras em quadra, pois tem também o fato jornalístico e a questão da divulgação em jogo?
A artística é a minoria. Eu só faço quando tenho tempo ou quando está muito na minha cara. Do contrário, eu tenho que investir na foto pela qual estou ali. Normalmente, o que é uma vantagem da máquina digital, tu já sabes quando o básico do teu material está feito. Então, sim, é possível investir na foto diferente, no ângulo diferente. Na época do filme, era mais difícil. Tu não sabias ao certo se tinha a foto até antes de revelar.
Além do fato de se estar sempre correndo contra o relógio.
É. Em uma cobertura jornalística, para que o trabalho tenha credibilidade, a foto tem que chegar no veículo antes dos concorrentes. Então, eu tenho que ser rápido. Se costuma dizer em fotojornalismo que a melhor foto é a primeira que chega. Então, se eu ficar descansado, buscando o melhor ângulo, não sei o que mais, nas redações de jornais, eles vão usar a que chegou primeiro, para finalizar a página e resolver o seu problema. Não vão esperar outra foto para ver se está melhor. Então eu trabalho com esta preocupação, mesmo quando o fuso horário é favorável. Na última Davis do Brasil, contra a Croácia, fechavam quatro games, e eu já voltada para a sala de imprensa para colocar a foto.
E o projeto WimBelemDom, que trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade social e completou cinco anos em março? Como surgiu a idéia?
Quando eu fiz a Exposição Ilha dos Lobos, em 1993/1994, eu descobri que a fotografia é uma ferramenta para se fazer coisas e acabei me engajando na causa do meio ambiente. Na época, poucos sabiam que aqueles animais habitavam no Rio Grande do Sul durante o inverno. Bem, por outro lado, como morador em Belém Novo, todo o dia eu passava por uma quadra abandonada, de saibro e já com mato, e pensava que poderia ser feita alguma atividade com as crianças do bairro. E, um dia, colocaram a placa de Aluga-se. Fui direto, e fiz um contrato de longo prazo. Depois fui buscar informações e know-how para fazer o projeto social.
Tu chegaste a ficar um tempo com a quadra alugada, não?
Eu fiquei um ano pagando aluguel e sem conseguir nada. Eu achava que, por trabalhar no meio do tênis, seria fácil conseguir patrocínios para esta idéia. Mas não foi assim. O mais difícil era conseguir o know-how, pois as pessoas davam mais ou menos dicas. Foi então que, fotografando o US Open em 2002, encontrei, por coincidência, a Suzana Santos, uma amiga de infância que já morava a 12 anos nos Estados Unidos e até hoje dá aula de tênis. Ela desenvolvia um projeto social de tênis em um dos bairros mais violentos de Los Angeles. Conversamos, trocamos idéias e ela me deu todo o conhecimento e assim começou o WimBelemDom. Ela também contribuiu financeiramente com o projeto durante dois anos.
Para quem não conhece o Projeto WimBelemDom...
Trabalhamos com crianças de risco social por meio do tênis e de outras atividades. Hoje trabalhamos com crianças que fazem parte de ONGs da região, de Clubes de Mães, de famílias que já estão cadastradas na Prefeitura. Hoje, como só temos um professor de tênis, trabalhamos com pouco mais de 60 crianças. Mas temos 90 vagas para crianças dos oito aos 12 anos. E contamos com a participação de voluntários. Hoje, por exemplo, precisamos de voluntários para as nossas oficinas de leitura, de informática e também para bater bola com as crianças.
O que te motiva a continuar com o Projeto WimBelemDom diante das dificuldades, como no atual momento, quando vocês estão sem nenhuma empresa mantenedora para 2009?
Eu vejo, ainda no Brasil, muito discurso de responsabilidade social e quase nenhuma prática. Para mim, projeto social é engajamento, é envolvimento. Temos histórias bem complicadas de crianças e acabamos nos envolvendo também. Tenho a certeza que o tênis é uma ferramenta fundamental. O esporte na vida de qualquer criança, de qualquer faixa etária, de qualquer condição social, é fundamental na formação. E, no meu entender, o esporte individual ainda mais do que o coletivo. Porque no coletivo, qualquer deficiência pode ser escondida. No individual, não. O esporte permite desenvolver bons valores que vão aparecer no futuro. Entra a questão da perseverança, da disciplina, da concentração... Vai aprender a ganhar e a perder. Isso é fundamental. O projeto então é isso: atraímos as crianças pelo tênis, mas temos também outras atividades de complementação escolar. Até gostaríamos de oferecer mais atividades, de funcionar diariamente, de oferecer atividades para os pais nos momentos em que as crianças não estão, mas não conseguimos por falta de patrocinadores, de mantenedores.
E como fazer para conhecer o projeto e contribuir, além de comprar as fotos que fazem parte da Exposição Tênis-Arte, dos 25 anos?
Nós temos o site www.wimbelemdon.com.br, temos informações sobre o Projeto WimBelemDom, sobre como colaborar e também sobre a exposição de fotos.
Crédito Foto: Arquivo Pessoal
Nota do Editor: as fotos da Exposição Tênis-Arte estão à venda, em diferentes formatos, no site do Projeto WimBelemDom. |
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| Cláudia Coutinho - Tênis Show |
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