Tu poderias nos fazer um breve histórico sobre o surgimento da chapa que hoje é a nova diretoria da Federação Gaúcha de Tênis? Ela tem o aval do Movimento do Tênis Gaúcho lançado no início de outubro, não?
Em 2008, quando estava na direção do Departamento de Tênis da Associação Leopoldina Juvenil, fiz questão de acompanhar a equipe do clube, sempre que podia, em torneios realizados no interior do Estado. Conversava muito com os organizadores do Circuito S.C.A. de Tênis Gaúcho, da Quadra Eventos, e com os coordenadores técnicos do clube sobre a situação do tênis no Estado. Eram conversas informais. Aos poucos, essas conversas ganharam a participação de outros treinadores. A partir de maio de 2009, um pequeno grupo passou a se reunir semanalmente, mas, a cada encontro, um novo integrante era convidado e se juntava aos demais. Assim foi até que decidimos divulgar o “Manifesto em Defesa do Tênis Gaúcho”.
Este Manifesto foi lançado no início de outubro e tinha a assinatura de cerca de 70 profissionais vinculados ao tênis – professores, treinadores, árbitros, empresários e tenistas.
Exato. Tanto que o meu nome não consta do Manifesto por eu não ser um profissional do tênis. Mas me sentia parte deste grupo. A partir da repercussão que este documento teve na comunidade tenística, nós sentimos a necessidade de partir para uma ação mais prática. Surgiu então a ideia de montar uma chapa para concorrer ao executivo da Federação. Entendemos que esse seria o primeiro passo para fazer um trabalho em prol do tênis gaúcho.
Como foram escolhidos os nomes para a chapa?
Antes de definir a nominata, nós buscamos entender porque os clubes se afastaram da Federação. E, como não tínhamos a informação de quais clubes eram filiados e quais os que estavam em condições de voto, nós procuramos contato com os clubes, da Capital e do Interior. É importante deixar claro que não queremos responsabilizar este ou aquele dirigente da Federação. Existe um problema histórico, agravado pela inércia que os últimos dirigentes demonstraram na gestão da entidade. Passamos então para o processo eleitoral, que, é bom dizer, não foi um processo fácil.
Por que não foi um processo fácil?
Não houve um diálogo com os dirigentes que eram os responsáveis pela Federação. Tanto que nós, do Movimento, tivemos que entrar com uma ação judicial na tentativa de obter as informações que achávamos que teríamos com certa facilidade. Eram informações sobre quais os clubes filiados e quais os votantes. Foi um momento que gerou um desgaste entre os dirigentes da Federação e os integrantes do Movimento. Quando partimos para a montagem da chapa, já sabíamos que 18 dos 20 clubes votantes estavam apoiando o Movimento. Somente dois clubes não apoiaram. Fomos então para as eleições sabendo que não concorreríamos com uma segunda chapa, o que acabou acontecendo.
Uma eleição com uma única chapa, mas que não representava a continuidade de um trabalho. Isso?
Exato. Não é continuidade das gestões anteriores. Dentro do regimento eleitoral da Federação, para o pré-lançamento de uma chapa, é necessário o apoio de seis clubes. Nós tínhamos o apoio de 18 dos 20 votantes, o que inviabilizava o surgimento de qualquer outra chapa. Até em respeito aos clubes que apoiaram o Movimento do Tênis Gaúcho, é importante deixar claro que a chapa que concorreu e foi eleita por aclamação não é uma continuidade do trabalho que vinha sendo feito na Federação.
O “Manifesto em Defesa do Tênis Gaúcho”, assinado por cerca de 70 profissionais do tênis, e depois o documento assinado por 20 clubes e academias em apoio ao Movimento deixam claro as preocupações e as demandas de todos. Quais são os desafios da nova diretoria da Federação Gaúcha de Tênis?
O primeiro é mudar o distanciamento que existe entre Federação e clubes. Por meio de um diálogo aberto com os clubes, estamos buscando a razão deste afastamento. Muitas coisas já sabemos, porque muitos dos envolvidos no Movimento têm uma participação diretiva nos clubes. Portanto, o maior desafio é trazer os clubes, e não somente aqueles que são filiados, para dentro da Federação. Para isso, é lógico, é preciso apresentar um trabalho, trabalho com foco no médio e no longo prazo. E esse trabalho passa pelo fomento do tênis infantil. Não consigo imaginar o tênis sênior ou o tênis profissional, sem a base do tênis infantil. É preocupante o fato de o número de praticantes de tênis estar caindo ano a ano. É claro que o tênis não perdeu somente para ele mesmo, também perdeu para outros esportes, para outras atividades. Por isso, vejo fundamental o fomento do tênis infantil. E, é claro que, este trabalho é um trabalho de médio e longo prazo, mas que tem que ser iniciado. Existe também a ideia de levar o tênis para as escolas públicas. Mas esse já será um segundo momento.
Vocês foram eleitos por aclamação e no mesmo momento tomaram posse da Federação Gaúcha de Tênis. Vocês receberam uma entidade que não mais existe como pessoa jurídica, não tem mais sede própria, não tem mais nenhum bem, mas que tem um passivo junto ao Fisco Federal e Estadual de cerca de R$ 15 milhões. Como ser gestor de uma entidade que, na prática, inexiste?
É bem complicado. É uma entidade que não existe como pessoa jurídica, mas que tem um passivo financeiro altíssimo. A ideia é viabilizar a existência dessa entidade. Como? Conseguindo uma parceria junto à Confederação Brasileira de Tênis, na forma de um escritório, como foi feito há alguns meses. Mas esse é um plano emergencial para existir, no máximo, nos próximos seis meses. Neste período de seis meses, precisaremos nos articular politicamente. Já existe um projeto de lei junto ao Governo do Estado que trata de anistia fiscal para situações semelhantes à que a Federação se encontra. Já conversamos com alguns políticos e já fomos orientados para que esta demanda seja de um grupo de entidades e não de uma única federação. É bom lembrar que boa parte deste passivo foi gerada a partir dos bingos. Vamos então buscar reunir estas federações e dar prosseguimento a este projeto.
A Federação, hoje, nem conta corrente pode ter para administrar o seu operacional, o seu dia-a-dia.
No dia seguinte à posse, no dia 16, tínhamos pessoas querendo fazer inscrições para torneios. Só conseguimos viabilizar isso por meio de parceria com as promotoras dos eventos. Eles fazem a cobrança e, depois, fazem o repasse para a Federação. Mas esta não é a maneira ideal.
O relatório entregue pelo então presidente Luiz Fernando Soares Pires, que mostra a trágica situação da Federação, assustou a nova diretoria?
Se tivéssemos recebido este relatório sem nada saber, assustaria qualquer um. Mas já tínhamos ideia do que estava acontecendo. É claro que o problema é grande, mas não surpreendeu.
Ao transferir a presidência da Federação Gaúcha de Tênis, na sede emprestada que a entidade ocupa, o próprio Luiz Fernando Pires disse que, se não fosse a presença do vice-presidente Vladimir Casa, ele estaria entregando o cargo sozinho. Vocês foram eleitos com o aval de todos os profissionais do tênis, clubes e academias que apoiaram e apóiam o Movimento do Tênis Gaúcho. Como fazer com que a gestão tenha a participação ativa de um grupo representativo do tênis do Rio Grande do Sul e não termine 2011 isolada no cargo?
Se pretendemos ter sucesso no nosso trabalho, e pretendemos, a união deste grupo é vital para qualquer resultado que buscamos para estes dois anos. Vale lembrar a formação deste grupo. Éramos cinco, e gradativamente o time aumentou. São apenas três cargos – um presidente e dois vice –, mas a ideia é mexer no estatuto ainda neste primeiro ano para criar uma estrutura de colegiado. A Federação só terá um trabalho de resultados se tiver a participação de um grupo, não dá para se querer resultados em uma entidade de duas pessoas. A intenção é criar departamentos, como técnico, de regulamento, de arbitragem... É claro que estaremos presentes em todos estes, mas cada departamento terá o seu responsável. Mas, mais uma vez, a união deste grupo é muito legal. Queremos iniciar este trabalho juntos, continuar juntos e, se possível, dar prosseguimento ao trabalho daqui a dois anos juntos. Esperamos que, em 2011, ao passarmos a entidade à outra gestão, que esta nova gestão seja formada por pessoas deste grupo. É claro que tudo isso depende dos resultados que virão. Hoje, recebemos o voto de confiança dos clubes para realizar este trabalho, não só com o aval, mas com a participação de todos.
Vocês também tiveram a preocupação de aproximar os clubes do Interior deste processo eleitoral, não?
Houve esta preocupação de trazer o Interior para dentro da Federação. Um dos nossos vice-presidentes, Juarez Mobrini Lopes, é do Interior, do Avenida Tênis Clube, de Santa Maria. Queremos mapear o Interior, dividi-lo em regiões, e cada uma terá um representante ligado a esta vice-presidência. Entendemos que essa estrutura dará mais mobilidade à troca de informações, de conhecimento. Existem, no Interior, torneios muito bem estruturados ocorrendo. São os chamados torneios piratas. E a intenção é trazê-los para a Federação. Mas para trazer um evento que já tem estrutura, já tem vida própria, é preciso dar um motivo para atraí-lo. Este é o trabalho que teremos que fazer. Queremos trazer estes torneios para o calendário da Federação.
São muitos os desafios e obstáculos. Qual é a meta ou qual é a situação a ser buscada?
Temos que fazer um trabalho passo a passo. Se conseguirmos transformar a Federação de novo em uma pessoa jurídica, de novo em uma entidade que possa ter uma sede, que possa pagar as suas contas, que possa ter corpo de Federação, já será um grande avanço. E, paralelamente, queremos trazer os clubes, os treinadores para dentro da Federação a fim de integrar, a fim de fomentar o tênis gaúcho. Estamos entrando em uma década na qual o Esporte Olímpico terá muita força no Brasil, em função dos Jogos de 2016 no Rio de Janeiro. O tênis tem que estar junto nisso. Temos também o desafio de atrair parceiros que nos permitam realizar nossos projetos.
Para finalizar, tu gostarias de fazer alguma convocação à comunidade tenística gaúcha?
Antes de convocar, gostaria de agradecer. Agradecer aos clubes, pelo menos a grande maioria deles, que nos receberam tão bem, primeiramente, para nos ouvir, e depois para depositar a confiança no nosso trabalho. À comunidade tenística, eu pediria que olhasse para a Federação de outra forma, não somente como uma entidade a quem devo pagar uma taxa para poder disputar torneios, mas como uma entidade que vai fomentar o esporte e que, por meio desta taxa, vai possibilitar o desenvolvimento do tênis. E fica a convocação: as portas da Federação estão abertas para todos que quiserem trabalhar pelo tênis gaúcho. |