Entrevistas


Paulo Bizzarro - Divulgação
Fernando Meligeni na abertura do Circuito S.C.A.
Fernando Meligeni
Tenista
"O tênis brasileiro precisa de informação"
Fernando Meligeni continua a mil e sempre atento ao que acontece no mundo do tênis. Além de divulgar o seu livro “Aqui tem!”, escrito com o jornalista André Kfouri e lançado no final de 2008, e dedicar-se ao Blog do Fininho, participa de eventos tenísticos por todo o país. Nos dias 4 e 5 de abril, esteve em Porto Alegre, para a etapa de abertura do Circuito S.C.A. de Tênis Gaúcho, que reuniu 170 tenistas dos oito aos 16 anos de idade. Fino, campeão pan-americano nos Jogos de Santo Domingo/2003, semifinalista em Roland Garros/1999 e semifinalista na Olimpíada de Atlanta/1996, entre outras conquistas, concedeu entrevista exclusiva ao Tênis Show. Falou do tênis no Brasil, da formação à falta de informação. Acompanhe os principais trechos:
 
Fernando, tu continuas envolvido com eventos tenísticos, como participação em torneios e realização de clínicas. Mas, neste momento, estás distante de projetos relacionados a questões técnicas ou de formação. É falta de oportunidade ou de vontade? Tu já trabalhaste junto à Confederação Brasileira de Tênis (CBT), quando capitão da equipe, por exemplo.

Acho que já fiz muita coisa pelo tênis e sempre vou fazer. Mas acho que você também busca um reconhecimento. E, infelizmente, eu não tenho este reconhecimento, principalmente das nossas entidades. E deveria ter. É muito fácil para as entidades falarem que nós temos que fazer tudo pelo esporte. Eu vivi fazendo pelo esporte. Dei resultados, dei medalha. O esporte, é claro, me deu muita coisa. E sempre vou fazer por ele. Mas, uma coisa é fazer como eu quero fazer: bater bola com a molecada, ajudar os profissionais, como tenho ajudado. Mas, se a CBT acha que eu sou um cara bom o suficiente para ajudar o tênis, que venha com propostas dignas. Eu nunca me neguei a ajudar.

De qualquer forma, a tua participação em eventos continua sendo uma forma de contribuição ao esporte.

É lógico que eu ganho a minha vida com muitas destas coisas que faço. Mas sei que o valor é ínfimo para esta molecada. Neste evento em Porto Alegre, por exemplo, eu converso o tempo inteiro com a garotada, faço palestra para os pais, realizo clínica. Tudo isso tem um valor muito grande. Infelizmente, no entanto, para as nossas entidades, tudo isso não passa de uma obrigação. A federação e a confederação deveriam estar ajudando para ter a minha presença em um evento como este. A minha presença, a do Jaime (Oncins), a da Vanessa (Menga), a do Guga, enfim... E não deixar apenas que o diretor do torneio se vire para trazer um destes nomes. Não deveria ser visto como um algo a mais. É essencial que ex-jogadores estejam presentes em campeonatos e ajudando no desenvolvimento do tênis. Porque nós não temos desenvolvimento no tênis.

Por vezes, também parece que, durante campeonatos infanto-juvenis, o foco fica direcionado somente para os futuros campeões em potencial, apesar de existir um número muito maior de garotos e garotas que gostam e sempre gostarão de jogar e de assistir ao tênis.

Eu faço cerca de 30 clínicas de tênis por ano. É significativa a quantidade de pessoas que participam destas clínicas e que nunca jogaram tênis. Um ano depois, ao voltar para o mesmo evento, estas pessoas dizem que graças àquela clínica começaram a jogar e não pararam. E o pessoal pergunta: Qual a melhor raquete? O que eu acho de o filho estudar nos Estados Unidos? Sobre qual é o melhor programa de corridas? Tudo isto é muito maior do que simplesmente fazer uma clínica. Por isso, eu sempre busco otimizar as minhas participações em torneios.

Tu participas de muitos eventos como este realizado em Porto Alegre voltado para o tênis infanto-juvenil. Qual é a maior angústia que tu observas por parte dos pais?

A falta de informação. O pessoal deve achar que eu só critico. Mas eu não consigo entender como, em um evento como este, que é totalmente lúdico, que é voltado para ensinar, como a Federação Gaúcha de Tênis não está presente junto com a empresa organizadora. Não tem um grupo de pessoas para informar os pais, para ensinar os pais. Porque a maioria destes pais são “marinheiros de primeira viagem” em torneios. Então, o mínimo que se espera é que as nossas entidades tragam a informação. Depois reclamam que os pais são chatos, que se metem na quadra. Mas será que disseram o que devem e o que não devem fazer? Tem muitos pais que nunca jogaram tênis, que não sabem como funciona um torneio. Será que não precisam de uma informação? Será que não precisariam de uma pessoa à disposição para dar esta informação? É um descaso cobrar a inscrição do torneio e nada darem em troca.

Tu conheces este cenário, pois realizaste a Copa Fino por três temporadas.

Em três anos de Copa Fino, a Confederação foi duas vezes em 30 dias de torneios. Não precisar ir à final. O tênis brasileiro precisa de formação e de informação. Já que formação é muito difícil, pois precisa de centro de treinamento, etc., etc. Vamos dar informação, que não custa caro. Não basta deixar um árbitro para ficar atendendo 150 crianças e seus pais.

Na palestra que fizeste para os pais durante o evento em Porto Alegre, muitas dúvidas surgiram, em especial em relação a estudos e competições.

Pelo meu blog (blogdofininho.blog.uol.com.br), eu recebo um grande número de emails – e respondo a todos. Mais pareço um 0800. São pais que perguntam o que faço com o meu filho? Não estaria faltando um 0800 nas nossas entidades? Colocar ex-profissionais à disposição durante torneios na Leopoldina, na Sogipa, em Gramado... Depois da 10ª conversa, o pai vai estar mais tranquilo. Não pode é o pai errar, sem saber por que está errando.

Por qual razão não fizeste mais nenhuma edição da Copa Fino?

Porque a CBT não merece e porque muitos pais dos moleques não merecem ter um torneio como eu fiz. Os melhores jogadores do Brasil, de acordo com o ranking, não foram na Copa Fino. Por quê?

E como está sendo a experiência de escrever um livro, “Aqui tem!”, que traz passagens importantes da tua vida?

Eu imaginava que ele seria um “boom” junto à molecada. E todo mundo me falava: “mas moleque não gosta de ler livro”. Mas o moleque lê notícias na internet, não lê? E o livro é assim, é rápido, é “falado”. Só que 80% do pessoal que está lendo estão acima dos 30 anos de idade, são fãs de tênis, caras que jogam tênis. A venda está legal. Mas eu imaginava que a molecada iria ler mais.

Em outra ocasião, tu disseste que os tenistas brasileiros deveriam comandar – e não presidir – o tênis brasileiro. Falta muito para alcançar este momento?

Falta ter político menos vaidoso, que queira aparecer menos e fazer mais. E isso não é nenhum recado diretamente para este ou para aquele. Isso diz respeito a todos os políticos, a todos os dirigentes esportivos que já conheci, exceção dois ou três. A gente precisa de gestor, de um cara que trabalhe, que tenha quatro, cinco tenistas que coordenem suas respectivas áreas. São estes que deveriam dizer o que tem que ser feito. Mas não dá para ser marionete na mão dos dirigentes. E isso não é só no tênis.

Tu defendeste o Brasil nas Olimpíadas, tu és campeão pan-americano e tu acompanhas os outros esportes. Recentemente, foi divulgado o caso, ou descaso, da Jade Barbosa, da Ginástica Artística, levando a, mais uma vez, questionar a estrutura do esporte olímpico no país.

O grande problema do Brasil é a impunidade. E depois, o jeitinho brasileiro. A gente vive naquela do “eu faço de conta que estou fazendo, e você faz de conta que está acreditando”. Isso é maléfico. A política está errada. E, mesmo com a política errada, a gente tem uns 30 esportes onde a gente já foi, ou é ou vai ser o melhor do mundo. O Brasil tem quantidade de campeões no cenário mundial, mas o pessoal não ganha grana. Vai ver a história do Robert Scheidt (vela), da Natalia Falavignia (taekwondo). O Brasil consegue resultados com atletas maravilhosos. Por isso acho que está na hora de participar de forma ativa, mas com salário. Alguém conhece alguma empresa que se faz com os funcionários trabalhando de graça? Se fizer, ótimo. Se não fizer, vai embora.
 
Cláudia Coutinho - Tênis Show
   
 
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