Entrevistas


Divulgação
Thomaz Koch
Tenista
Se o trabalho é bem feito, os resultados aparecem
Thomaz Koch, um dos principais nomes do tênis brasileiro, esteve em Porto Alegre durante o mês de dezembro em duas oportunidades: em uma para participar de perto do trabalho realizado no tênis da Associação Leopoldina Juvenil e em outra para prestigiar a exposição de fotos de Marcelo Ruschel em prol do Projeto WimBelemDon. Em um dos intervalos nos treinos no clube do Moinhos de Vento, recebeu o Tênis Show para uma entrevista exclusiva. Falou de seu trabalho, dos projetos para 2009, do tênis internacional e das dificuldades que a garotada enfrenta para conquistar um espaço no circuito profissional. Acompanhe os principais trechos da entrevista:
 
Como tu vês hoje o tênis brasileiro, depois da Era Guga Kuerten?
O tênis brasileiro melhorou. Está bem. Mas o tênis lá fora também melhorou. Penso que a dificuldade até aumentou porque tem muito mais gente jogando. Antes, era mais fácil ultrapassar a barreira. Hoje está mais difícil, por isso da importância de existir um trabalho por trás, de uma equipe, ter um acompanhamento. Agora, do ponto de vista da habilidade, sempre achei os nossos tenistas muito hábeis. O esportista brasileiro, de um modo em geral, tem habilidade. Falta é persistência e vontade para trabalhar. Mas acho que a consciência melhorou muito. Antes, o cara conquistava um bom resultado e achava que já tinha chegado lá. Hoje, o pessoal está se dando conta do que é preciso fazer para chegar lá. Mas poucos se dispõem a isso. De fora, parece um glamour, viaja para Roma, para Paris, ganha em euro... Mas é uma vida dura e muito solitária. E o brasileiro sente muito a falta de casa. O brasileiro viaja, passa duas, três semanas e quase não aguenta mais. O argentino, por exemplo, já sai de casa sabendo que vai retornar depois de seis meses, corta o cordão umbilical e vai à luta. O brasileiro tem mais dificuldade.

E nem estamos falando das brasileiras.
Para as mulheres, é ainda mais complicado. As mulheres já não se dão tão bem quanto os homens. Eles saem para jantar juntos. Elas já ficam mais isoladas, ou com o seu treinador, ou totalmente sozinhas. E isto é difícil. Quem está a fim de passar por isso?

E quanto ao circuito mundial? Em 2008, Rafael Nadal superou Roger Federer, assumiu a liderança. Outros nomes surgiram. O que teremos em 2009?
Eu acho que o início de 2008 foi muito complicado para o Federer, que teve mononucleose e não estava em condições de encarar o Aberto da Austrália. Se não estava bem, não deveria ter ido. Talvez ele achasse que ganhava de qualquer jeito, mas, hoje em dia, ele não ganha mais de qualquer jeito. E isso afetou a confiança dele. O Nadal surpreendeu, pois está cada vez mais forte mental e fisicamente. Eu já esperava que o Djokovic fosse incomodar em 2008, tanto que achava que ele iria alcançar a liderança. Mas o Nadal... Foi impressionante. A final de Wimbledon foi impressionante. Para muitos, foi o melhor jogo da história do torneio. Eu lembro daquele jogo entre John McEnroe e Bjorn Borg. Acho que o Federer pode voltar a ser o número 1, mas acho que ele tem que mudar de raquete, pois ela não está respondendo como antes.

E quanto aos novos? Temos os franceses? O argentino Juan Del Potro?
Eu gosto muito do Del Potro, como eu gostava muito do Coria (o argentino Guillermo Coria), do Rios (o chileno Marcelo Rios). Eram dois gênios na quadra. Tem também o Simon, um tenista francês que é muito aplicado. É muito duro ganhar dele. Ele vai fazer “estrago” em 2009. E isso mostra que o trabalho que vem sendo feito na França é excepcional. Achei que o Tsonga iria arrebentar em Wimbledon em 2008, pois o jogo dele é feito para jogar lá: tem um belo saque, um bom voleio e é rápido. Tem ainda o Murray, que antes tinha habilidade e lhe faltava o físico, mas agora tem físico. A temporada de 2009 vai ser legal. Antes esperávamos por uma final entre Nadal e Federer. Agora é outra coisa.

Qual o balanço que tu fazes do trabalho que realizas na Associação Leopoldina Juvenil, iniciado em abril de 2008?
Houve uma integração muito boa da diretoria do tênis, com o apoio da presidência do clube, com os professores e os alunos, criando um ambiente muito agradável, muito harmônico. E os resultados aconteceram. Foram muito bons. É claro que, no tênis, é difícil fazer uma avaliação de resultados em um período tão curto de trabalho. Mas o pessoal que está jogando, que está treinando, melhorou muito a consistência do seu jogo, a sua postura e também a sua consciência em relação à disputa dos pontos. Tivemos no final do ano um torneio no clube e deu para perceber que todos estão jogando bem. E, principalmente, todos estão curtindo muito jogar tênis. É muito importante valorizar a possibilidade de jogar tênis, de participar de intercâmbios, de disputar torneios, além do próprio treinamento. E também estão curtindo estar no clube.

Seria o resgate de fazer parte do tênis da Leopoldina Juvenil.
Isso mesmo. Está sendo criado novamente o ambiente tenístico no clube. E vejo isso como um ponto muito positivo. É importante destacar esta vontade de trabalhar dos professores e dos alunos.

E este trabalho terá continuidade em 2009 (*)?
Não depende de mim. Da minha parte, estou muito contente de fazer parte do grupo, de ter sido convidado para realizar este trabalho e participar deste momento muito favorável. Quanto à continuação ou não do trabalho, acho que seria inteligente continuar, até porque, para fazer uma melhor avaliação, seria interessante ter um período mais longo. Mas, mesmo em um período curto, já pudemos destacar tantos pontos positivos como destaquei. Houve uma melhora na consistência do jogo, na qualidade de nível de jogo, de consciência do que fazer na quadra. Vejo que, em muitas academias, o pessoal faz muito drill, muita trocas de bola, mas não se tem uma idéia clara de como jogar os pontos em um 30-40, em um 15-0, por exemplo. São maneiras diferentes de ver o jogo. Quem está de fora costuma achar que todo o ponto deve ser disputado com o mesmo valor. É completamente diferente. É importante descobrir qual é o ponto decisivo, qual o ponto que vira o jogo. Leva-se tempo para aprender. É preciso quilometragem de jogo. Vão aprender jogando, mas com o acompanhamento do professor fica mais fácil perceber e analisar a partida.
(*) A nova presidência da Associação Leopoldina Juvenil toma posse no dia 15 de janeiro de 2009.

Que outros trabalhos realizas, além deste na Associação Leopoldina Juvenil?
Eu estou treinando o Leonardo Nahar, do Clube Paissandu, no Rio. Ele está com 18 anos e está começando a fase de buscar ultrapassar a barreira de disputar os futures. Começamos um trabalho no final do ano e sempre que possível vou acompanhá-lo em alguns torneios. Não em todos. Faremos a pré-temporada em janeiro e fevereiro. Existe a possibilidade de trabalhar com outro garoto para formar uma equipe. Estamos vendo e também definindo calendário.

Será a tua volta ao circuito profissional mundial, pois há tempos não acompanhavas um jogador.
Fazia bastante tempo, desde a época do Yzaga (o peruano Jaime Yzaga) e dos alemães.

Algum outro projeto?
Tive a perspectiva de que pudesse fazer um trabalho infanto-juvenil com a Confederação (Confederação Brasileira de Tênis). Mas furou. Tanto que quando entrei na equipe técnica da Copa Davis, juntamente com o Chico (Chico Costa) e o Zwetsch (João Luiz Zwetsch), a idéia era no restante do tempo, já que a Davis são poucas semanas por ano, realizar um trabalho junto ao infanto-juvenil, preparando a gurizada, realizando palestras, realizando treinamento durante um curto período em um determinado lugar. Mas não foi adiante. Esta foi a razão de eu ter achado que não valia a pena continuar na comissão técnica.

Falaste na barreira que é ultrapassar a linha dos torneios futures. Existe alguma “receita” para vencê-la?
O fato de termos no Brasil uma série de torneios futures é muito positivo. Mas o fato de termos um monte de torneios não vai facilitar a vida dos jogadores. Pode até criar a ilusão de que um future não é tão importante porque na próxima semana terá outro, na seguinte, outro e assim por diante. Mas não existe outra solução que não seja jogar, treinar e encarar esta barreira como uma conseqüência de um trabalho. Se ele é bem feito, os resultados acontecerão normalmente. Tem que passar por este processo. A não ser que o cara seja um gênio. O normal é ir passo a passo. A receita é ter paciência e humildade para aceitar o lugar onde se está. Às vezes, pesa até a intuição. E tem também a questão do investimento.

A questão do investimento nem sempre é citada como uma das barreiras para ir adiante.
É um investimento caro. E se tem um treinador acompanhando, os custos são multiplicados por dois. Mas se o jogador tem a possibilidade de ter alguém lhe acompanhando, pode servir de atalho. Eu sei bem disso. Eu, o Mandarino (Édson Mandarino), todo o pessoal da minha época, descobriu tudo sozinho. Deveríamos levar dois anos, mas precisamos de quatro anos para descobrir os atalhos. O professor serve também para isso, para mostrar os caminhos e os atalhos.
 
Cláudia Coutinho - Tênis Show
   
 
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