A preparação física exerce um papel determinante na performance dos tenistas. Os altos índices de desempenho atlético registrados nos últimos anos têm uma relação direta com o progresso do conhecimento científico aplicado à metodologia do treinamento físico-desportivo. Na realidade, a ciência ainda não encontrou limites para o rendimento do atleta. Quando se acredita que um recorde jamais será superado, aparece um atleta para surpreender a todos, que pasmados concluem: tudo é possível! Entretanto, na busca obstinada pelas vitórias nas competições comete-se alguns exageros, principalmente, quando se potencializa as cargas de treino de forma unilateral prematuramente. Isso porque o tênis se caracteriza enquanto um esporte que impõe estímulos de natureza assimétrica: exige inúmeras repetições de habilidades específicas que sobrecarregam um lado do corpo em relação ao outro. Ora, se o único objetivo da preparação física fosse potencializar as qualidades físicas específicas do esporte, os desequilíbrios musculares poderiam se acentuar drasticamente, principalmente, na região do tronco e da pelve. Além disso, os encurtamentos musculares também decorrentes dessas ações podem causar sérias lesões nos tenistas em médio e longo prazo. Diante disso, as responsabilidades do preparador físico aumentam de forma significativa. Nesse contexto, emergem algumas questões relevantes: (1) Como deve ser conduzida a preparação física do tenista se o modelo muito específico é prejudicial e o modelo geral peca por não ser específico? (2) Quais os cuidados necessários para diminuir os riscos de lesões associados à natureza assimétrica do tênis? As respostas para essas questões, obviamente, não poderão ser conduzidas por modelos prontos de aplicação, pois não há fórmulas mágicas quando se trata de jovens atletas em crescimento. No entanto, é possível sim estabelecer alguns princípios norteadores que devem orientar os programas de atividades que serão propostos. O primeiro sustenta-se na compreensão de um dos principais conceitos estabelecidos na teoria do treinamento desportivo: “multilateralidade específica do esporte”. Trata-se da necessidade de potencializar o desenvolvimento das qualidades físicas gerais – coordenação, força, velocidade, resistência e flexibilidade – na medida exata exigida pelo esporte em particular. Para ser mais claro: o tenista não precisa ter, por exemplo, a resistência de um maratonista; porém, precisa desenvolver uma resistência física, que vai além daquela adquirida nos treinamentos de longa duração realizados na quadra de tênis. Para manter a mesma energia nas ações motoras e nos deslocamentos em quadra desde o início até o final dos jogos, o tenista precisa dispor dessa resistência física de base geral, que deverá ser obtida em trabalhos físicos fora do ambiente da quadra. Com base nesse princípio emerge o segundo: na fase de formação do tenista é imperativo estabelecer uma íntima relação entre os meios de preparação geral e específicos. Os procedimentos para atender esse princípio devem priorizar a diversificação dos meios e métodos de treino, de forma que se possam reduzir significativamente as repetições intermináveis de gestos motores que sobrecarregam grupos musculares específicos. Inclusive, com o alargamento do repertório motor é possível diminuir a incidência de lesões por esforços repetitivos (LER) e, até mesmo, os riscos de especialização esportiva precoce. A forma de condução do trabalho, portanto, deve respeitar esses dois princípios do treinamento físico-desportivo do tenista. Para tanto, seguem algumas recomendações: (a) as cargas de trabalho físico devem ser aplicadas a partir da capacidade individual do tenista e da adaptação de seu organismo; (b) a concentração das cargas de treinamento devem considerar as respostas do organismo, principalmente, em médio e longo prazo; (c) as adaptações necessárias aos estímulos advindos dos treinamentos somente serão possíveis se levarmos em conta os riscos de lesões provenientes de desequilíbrios musculares causados por repetições de esforços unilaterais específicos. Aliás, o verdadeiro contraponto para a carga de trabalho unilateral – inevitável no treinamento técnico-tático – é exatamente o treinamento multilateral de base física. Esse sim é o único capaz de minimizar os riscos de lesões associados ao somatório dos jogos e das longas sessões de treinamentos. Portanto, não acredite na máxima: “quanto mais se treina especificamente as qualidades físicas do tênis, melhor será o desempenho atlético final do tenista”; acredite sim que esse caminho – em médio e longo prazo – poderá comprometer totalmente uma carreira de sucesso no tênis de alto rendimento. Sabe-se que os resultados em curto prazo também são importantes, porém não são prioritários quando se trata de um planejamento responsável e comprometido com a longevidade da carreira do jovem tenista. Essa sim é a prioridade, pois imaginem como é dramático encerrar uma carreira precocemente por problemas físicos ocasionados pelas sobrecargas de trabalhos específicos realizados na quadra. Não é mesmo? Até a próxima! |