Repete-se, constantemente, que o povo brasileiro é um “povo carente de ídolos”. Bobagem. Viajei o mundo inteiro e pude constatar que, na verdade, já somos os campeões mundiais nesse quesito.
Pelé, Xuxa, Romário, Senna, Ronaldo e por aí vai. Lula, cuja história inacabada virou filme, ou melhor, fábula infantil, também já virou ídolo.
Na Alemanha, por exemplo, o último ídolo se chamava Adolf Hitler – os alemães devem ter aprendido que idolatria e fanatismo andam de mãos dadas. E que fanatismo e violência também andam de mãos dadas. Já os ingleses eram obcecados pela princesa Diana. Também terminou em tragédia. Assim como o nosso Senna, ela foi vítima de uma combinação fatal de curva fechada, alta velocidade e pressão desumana.
A verdade é que, nas sociedades mais civilizadas, hoje em dia, idolatrar é coisa de criança. No máximo, de adolescente. Algo saudável. Um adulto que idolatra, no fundo, é um fanático. E um adulto fanático por qualquer coisa é sempre uma bomba prestes a explodir. É só ver o comportamento das nossas torcidas organizadas.
Roger Federer, por exemplo, é admirado no mundo inteiro, mas não chega a ser “idolatrado”, nem em seu próprio país. Sorte dele que não nasceu no Brasil. E azar nosso. Rafael Nadal, tampouco, é perseguido pelos espanhóis.
Os franceses amam Zidane, mas o compreendem como um ser humano, tão capaz de encantar com a bola nos pés como dar uma cabeçada em um adversário em uma final de Copa do Mundo. Zidane não virou vilão, ao contrário, aquele lance o aproximou ainda mais das pessoas, especialmente depois que ele admitiu o erro grotesco e pediu desculpas.
Neste caso, eles é que estão certos. E nós, errados. A nossa imprensa exagera no hábito de rotular as pessoas. Somos divididos, dramaticamente, em vencedores ou perdedores, heróis ou vilões, colorados ou gremistas, reacionários ou comunistas, atletas de cristo ou “bad boys”, a favor ou contra. Não existe meio termo, não há equilíbrio. E onde não há equilíbrio, infelizmente, nunca haverá paz. Mas quem disse que a mídia deseja a paz?
Pois é justamente em um ambiente de competição extremada e radical que surge a figura do ídolo. Um ídolo gera sempre grandes manchetes, para o bem e para o mal, ou seja, a mídia o engorda para se alimentar dele.
Obviamente, depois de devidamente glorificados e eternizados, alguns deles começam realmente a acreditar que estão acima do bem e do mal. Que são invencíveis. Nesses casos, geralmente, a coisa termina de uma maneira surpreendente, muitas vezes trágica. A decadência faz parte da natureza, e é preciso sabedoria e equilíbrio para lidar com ela com o mínimo de sofrimento.
Pelé, instintivamente, sempre soube disso e se tornou um mestre na arte de se preservar. Parou de jogar no auge e deixou a falsa impressão de que jamais perdeu. Virou mito. Fora de campo, no entanto, além de ter sido o maior mulherengo de todos, se envolveu com gente desonesta e, certamente, não foi um bom pai. Por isso mesmo criou “Édson”, o álibi perfeito.
E o que dizer de Tiger Woods? Neste momento, tenho certeza, ele daria tudo para ser brasileiro. Seu prestígio ainda estaria intacto. Vide Ronaldo. Neste item particular, sem dúvida, com as devidas ressalvas, somos melhores do que os americanos. Bill Clinton e o mundo inteiro que o digam.
O importante é saber que, de um jeito ou de outro, dentro ou fora das quatro linhas, todos nós falhamos. Portanto, ao contrário do que se diz, ninguém merece ser idolatrado, endeusado. E todos merecem, sim, ser respeitados, até prova em contrário.
O que nós, brasileiros, realmente precisamos não é de mais ídolos e de mais fanatismo, mas de equilíbrio, de educação, e de bons exemplos, que nos ajudem a identificar e compreender a diferença entre o certo e o errado, e a escolher o nosso próprio caminho.