15/05/2008
Méritos no saibro e simplicidade na grama
Tênis não é meramente a execução, separadamente, de direitas, esquerdas, saques e voleios durante uma partida. O aperfeiçoamento de todos esses golpes, em fase incipiente do aprendizado de tênis, sim, ocorre de forma isolada para que o indivíduo assimile cada uma das ‘armas’ que futuramente utilizará para vencer seus mais duros oponentes. Em estágio mais avançado, o aluno aprende a parte tática, ou seja, absorve os caminhos para associar golpes de acordo com as circunstâncias do jogo, e as potencialidades e fraquezas de seus adversários.
Essa breve introdução remete à rivalidade atual entre Roger Federer e Rafael Nadal. O número 1 do mundo, paradoxalmente, não possui muito êxito no piso lento, que claramente exige dos tenistas mais recursos técnicos e uma percepção tática mais aguçada; algo que o tenista da Basiléia exibe com folga. Enquanto isso, na grama, onde o jogo é mais objetivo e os pontos são decididos em períodos menores de tempo – muitas vezes pela força de um golpe e não pela construção tática de um ponto –, o talento do pentacampeão de Wimbledon prevalece. A explicação está na personalidade de Federer.
Apesar do talento em demasia e do vasto repertório técnico, Roger Federer, diferentemente de Rafael Nadal, não possui a paciência necessária e a força mental para suportar as maratonas no piso lento. Em várias ocasiões, diante do espanhol, foi vencido em finais de importantes competições no saibro europeu pelo excesso de erros em momentos cruciais das partidas, desperdiçando inclusive vários breakpoints. Ao contrário, o tenista de Palma de Mallorca não exibe um grande golpe, mas entra em quadra com uma vontade imensurável de vencer e um script tático pré-determinado que aponte os caminhos da vitória.
As diferenças expostas entre estes dois pisos explicam, por exemplo, os resultados obtidos por Andy Roddick antes da consolidação de Federer como o grande tenista que é, e sua costumeira inibição sobre o piso lento. Um atleta de um golpe apenas, como o americano, dificilmente conseguirá grandes feitos sobre o saibro devido à necessidade de construção, ponto a ponto, da vitória. Não adianta apenas sacar a 230 km/h, mas sim complementar o bom serviço com uma boa winner de direita ou de esquerda. Por isso que os grandes sacadores costumam, na temporada européia de terra batida, simplesmente desaparecer da chave nas primeiras rodadas das competições.
Federer possui, ao contrário de Nadal, golpes decisivos que fazem dele o pentacampeão de Wimbledon, e os recursos técnicos que o permitirão, provavelmente em um futuro próximo, vencer no saibro. Consciente disso, o espanhol costuma enaltecer o suíço como o melhor tenista da atualidade após suas vitórias diante do número 1 do mundo. Não é por ironia; Rafael Nadal sabe que, quando Roger Federer encontrar um ponto de equilíbrio entre a técnica e a tática necessária em um jogo no piso lento, será muito difícil derrotá-lo. Tony Roche não obteve êxito. José Higueras está tentando. Felizmente, seu estilo de jogo o permitirá pelo menos mais cinco tentativas de vencer o Grand Slam francês.
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Artur Salles |
| Artur Salles Lisboa de Oliveira é jornalista, coordenador-geral da Revista Eletrônica Raciocínio Crítico, acompanha o circuito profissional de tênis desde novembro de 2003.
e-mail: arturslo@hotmail.com |
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